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Quando a ostentação se torna um problema. Psicóloga SP

Quando a ostentação se torna um problema


Quando a ostentação se torna um problema 

Imagino que, desde que o mundo é mundo, as pessoas — e também alguns elementos da natureza — ostentam suas conquistas. 

As plantas exibem suas folhas verdejantes, os pássaros suas plumagens novas, as cachoeiras suas quedas volumosas. 

E os seres humanos... bem... aqui já é outra história. Uma história que remete a muito, muito tempo atrás.

A História da Ostentação

Desde as antigas civilizações, reis desfilavam coroas pesadas, roupas adornadas em ouro e enormes construções erguidas quase como um grito silencioso de poder. 

Castelos, pirâmides, joias, banquetes públicos... tudo isso servia não apenas para conforto, mas também para comunicar algo: “vejam quem eu sou”, “vejam o que eu conquistei”, “vejam o meu valor”. 

 

Castelos, pirâmides, joias, banquetes públicos... tudo isso servia não apenas para conforto, mas também para comunicar algo: “vejam quem eu sou”, “vejam o que eu conquistei”, “vejam o meu valor”.

Percebemos que, de certa forma, há um desejo de reconhecimento, admiração e pertencimento

E a ostentação serviria, portanto, como uma forma de delimitar o território da conquista, como se existisse uma cerca invisível separando os que têm daqueles que não têm. 

Nas antigas civilizações, isso era nítido. De um lado, a nobreza ostentando suas posses; de outro, a plebe, que nada tinha para ostentar. 

Nas antigas civilizações, isso era nítido. De um lado, a nobreza ostentando suas posses; de outro, a plebe, que nada tinha para ostentar.

 

Portanto, a humanidade aprendeu, de modo equivocado, a valorizar as pessoas pelo que elas têm, e não pelo que elas são. 

 

Passaram-se muitos anos. 

Não estamos mais na Antiguidade e, ainda hoje, muitas pessoas continuam cultivando comportamentos de ostentação. Por quê? Para quê? É sobre isso que vamos falar agora. Sem ostentação.

Os Dois Lados da Moeda da Ostentação

Se, por um lado, a ostentação serve para exibir força, conquista, inteligência, beleza, saúde etc., por outro, ela também pode simplesmente querer dizer: “eu consegui”, “eu cheguei lá”.

O lado bom

Nem toda ostentação é ruim. 

Se um agricultor publica, em suas redes sociais, uma foto de sua plantação bonita e saudável, de suas árvores frutíferas ou de sua colheita — fruto de muito trabalho e esforço — isso, embora também seja uma forma de ostentação, parece transmitir a mensagem de que vale a pena investir esforço em um trabalho promissor e honesto. 

E pode, em alguns casos, servir de exemplo para outras pessoas.

Da mesma forma, um estudante que passou em um vestibular concorrido e posta uma foto com o nome da universidade pintado na testa pode estar dizendo: “vejam, eu consegui. Você também pode conseguir”.

Embora isso também seja ostentação — afinal, ostentar é mostrar, exibir, tornar público —, pode existir aí uma finalidade nobre.

Quando a Ostentação se torna um problema

Mas... infelizmente, a ostentação também possui um lado muito negativo, que é o de demonstrar superioridade — seja ela intelectual, monetária, física, afetiva, emocional, educacional, altruística, etc.

Nesse caso, a intenção já não parece ser compartilhar uma conquista ou inspirar outras pessoas, mas sim estabelecer uma espécie de hierarquia invisível. 

Como se algumas pessoas precisassem constantemente provar que são melhores, mais importantes, mais felizes, mais desejadas ou mais bem-sucedidas do que as demais.

E talvez seja justamente aí que a ostentação comece a se tornar um problema.


A sociedade Narcisista 

Porque, quando a necessidade de exibir superioridade se torna frequente, podemos então suspeitar que vivemos em uma sociedade cada vez mais narcísica, onde somente as conquistas parecem ter algum valor, onde sentimentos negativos como a inveja e o ciúme imperam, e onde a competitividade destrutiva ganha força.  

Nessa sociedade narcísica, valores pessoais passam a ser praticamente ignorados, enquanto apenas valores que podem ser exibidos, medidos ou ostentados recebem validação. E digo mais: até mesmo valores considerados nobres podem, às vezes, ser utilizados como formas de ostentação.

Quantas pessoas fazem o bem apenas para ostentar virtudes? 

Quantas ajudam os outros apenas para serem reconhecidas como benevolentes

Quantas perdoam apenas para parecerem moralmente superiores? 

Quantas trabalham mais do que os outros não por realização pessoal, mas para que o outro seja desvalorizado e elas sejam admiradas?

Quantas pessoas ostentam inteligência apenas para diminuir o outro e transformá-lo em ignorante? 

Ou exibem saúde, beleza, riqueza ou estabilidade emocional não para compartilhar felicidade, mas para provocar comparação, inferioridade ou frustração em quem observa?

Perceba que, nesses casos, a ostentação deixa de ser apenas uma exposição de conquistas e passa a funcionar como instrumento de poder psicológico. Não se trata mais de celebrar algo, mas de ocupar uma posição superior dentro de uma disputa silenciosa de valor pessoal.

E talvez esse seja um dos aspectos mais perigosos da ostentação: quando o brilho de alguém passa a depender do apagamento do outro.

O que a ostentação quer ostentar

Embora a ostentação frequentemente apareça como uma demonstração de superioridade, na prática, quando lemos suas entrelinhas, ela muitas vezes quer dizer outra coisa.

Curiosamente, pessoas muito presas à necessidade de ostentar superioridade nem sempre se sentem superiores de verdade. 

Em alguns casos, ocorre exatamente o contrário. Quanto maior a necessidade de provar algo o tempo inteiro, maior pode ser a dificuldade interna de sentir segurança, autoestima ou satisfação genuína.

É como se a ostentação funcionasse, em determinados casos, como uma tentativa constante de compensação emocional. 

A pessoa exibe força porque teme a fraqueza. Exibe riqueza porque sente escassez. 

Exibe felicidade porque talvez não consiga senti-la de maneira estável. 

Exibe inteligência porque teme não ser valorizada. Exibe beleza porque não consegue se sentir suficientemente admirada.

Conclusão

Perceba que isso muda bastante a forma como enxergamos o comportamento de ostentar. Porque, por trás de algumas demonstrações exageradas de superioridade, pode existir alguém tentando desesperadamente convencer não apenas os outros, mas a si mesmo.

E talvez seja justamente por isso que a ostentação raramente produz satisfação duradoura. Afinal, quando o valor pessoal depende constantemente da validação externa, nenhuma conquista parece suficiente por muito tempo.

Portanto, fica aqui uma reflexão cuidadosa sobre a ostentação: nem tudo é aquilo que parece e, como diriam os antigos, nem tudo o que reluz é ouro.

E vou além: às vezes, os maiores tesouros do ser humano estão justamente escondidos onde quase ninguém procura. 

Na discrição, na humildade, no silêncio, na capacidade de ser verdadeiro sem precisar transformar a própria existência em vitrine.

Porque algumas das qualidades mais valiosas da vida não precisam ser ostentadas para existir. 
 
Referências 

VEBLEN, Thorstein.
A teoria da classe ociosa: um estudo econômico das instituições. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

ARISTÓTELES.
Política. São Paulo: Martin Claret, 2006.

SÊNECA.
Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017.

ELIAS, Norbert.
A sociedade de corte. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

BOURDIEU, Pierre.
A distinção: crítica social do julgamento. Porto Alegre: Zouk, 2007.

LE GOFF, Jacques.
A civilização do Ocidente medieval. Bauru: EDUSC, 2005.

VEYNE, Paul.
História da vida privada: do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TRIGG, Andrew B.
Veblen, Bourdieu, and conspicuous consumption. Journal of Economic Issues, v. 35, n. 1, p. 99-115, 2001.

ČEMEVIČIŪTĖ, Jūratė.
T. Veblen's theory of conspicuous consumption and problems of modern culture and consumption analysis. Problemos, v. 64, p. 38-51, 2003.





 

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Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) com Acolhimento Humanizado na Bela Vista, São Paulo/SP.

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